“Arte Como Trabalho” é resultado da construção de um projeto erguido coletivamente por um grupo de pesquisadores atuantes no estado do Rio de Janeiro. A ideia norteadora surgiu a partir de conversas informais, em meados de outubro de 2020, a respeito do trabalho na área de arte e cultura, ou melhor, sobre a falta de oportunidades e a precarização do campo. Entendermo-nos como “ trabalhadores da arte”, categoria que abarca profissionais com formações, experiências e práticas tão diversas, foi um passo de suma importância para fomentar a rede tecida nos últimos meses.

A realização desta exposição coletiva e das ações que ocorrerão nas próximas semanas, todas virtualmente, só foram possíveis em razão da Lei nº 14.017, de 29 de Junho de 2020. Nomeada como Lei Aldir Blanc, tal se destina ao setor cultural, a nível nacional, como uma ação emergencial devido ao estado de calamidade ocasionado pela pandemia de COVID-19. A crise sanitária somente evidenciou os problemas que já ocorriam em nosso país, e no setor cultural não foi diferente. Infelizmente, vivemos em constante estado de emergência, de modo que aguardar pelo amanhã nos custa caro. Estamos aqui, resistindo à opressão, insistindo em ideais, seguindo a jornada na luta pela sobrevivência, vislumbrando futuros possíveis. Nos encontros e desencontros da vida, redescobrimo-nos, aprendemos com outres e também compartilhamos nossas experiências, numa construção coletiva de estratégias.

Por meio do lançamento de um edital público, recebemos 133 inscrições de artistas ou coletivos de residentes em diferentes bairros e cidades do estado do Rio de Janeiro, o que nos indicou o alcance descentralizado do projeto. Tivemos a grande responsabilidade de analisar cada proposta e discutir coletivamente quais deveriam integrar a exposição, considerando as relações formais e conceituais entre elas. O mais difícil em exercer a função de curadores foi a obrigação de desconsiderar a participação de 113 proponentes. Todes, sem exceção, contribuíram de algum modo para o desenvolvimento das inquietações aqui propostas. 

O título “Arte Como Trabalho”, acompanhado do subtítulo “estratégias de sobrevivência dos trabalhadores da arte”, corresponde a um eixo conceitual que, por si mesmo, já aponta  pluralidades de questões, entrecruzadas por experiências individuais e coletivas. As múltiplas possibilidades de abordagem podem fomentar diálogos que reverberam em diversas direções. Cada um/a de 20 artistas selecionados explora tais relações de maneira distinta em suas obras. Algumes propuseram relações imagéticas mais diretas com o repertório presente no imaginário popular e na iconografia da história da arte brasileira a respeito da representação do trabalho. Outres, no entanto, trouxeram uma relação estética mais sutil, emergindo discussões que ultrapassam as fronteiras desse eixo conceitual. Independentemente das escolhas de técnica, linguagem e poética, todes apresentam provocações necessárias e propõem perspectivas que divergem dos discursos já institucionalizados sobre as relações entre arte e trabalho. Na montagem da exposição, novas conexões foram criadas, o que nos permitiu observar como há um número expressivo de chaves de leitura, para além do esboço desenhado inicialmente. Em sua unidade, torna-se possível destacar eixos por assuntos específicos, assim como intuir tantos outros agrupamentos por recortes mais fluidos. 

Desde meados do século XX, com o advento do que se entende por arte contemporânea, artistas passaram a elaborar com maior frequência críticas não somente à sociedade burguesa e ao sistema capitalista, mas também às instituições oficiais e circuitos de arte. Questionar a instituição não implica descartá-la, desmerecer sua importância, antes disso, trata-se de repensar seu papel diante do contexto em que se vive, tal como verificar se a mesma cumpre sua função social. 

Dessa forma, as obras presentes nessa exposição promovem tanto uma discussão sobre o lugar social da arte quanto da/do própria/o artista. É possível notar, ainda, críticas ao acúmulo de funções, sobreposição que resulta da precariedade e se converte em estratégia. Não por acaso, deparamos-nos com imagens de corpos exaustos em decorrência de esforços físicos e pressões cotidianas, uma denúncia das péssimas condições às quais estão/são submetidos, potencializadas por questões étnico-raciais, de classe e de território. Sob a perspectiva de gênero, acentua-se, em algumas produções, o debate referente ao trabalho doméstico e à maternidade, questionando a lógica patriarcal. 

O estreitamento da arte com a vida permitiu uma maior abertura para criação de narrativas pessoais, que partem de vivências e afetividades. A vida, sua escrita, é interpretada como um ponto de partida, motivação para fabulações. O resgate da ancestralidade, o conhecimento popular, a reação do corpo na cidade, os trânsitos e deslocamentos, a construção de memórias são detalhes que cotidianamente poderiam passar despercebidos. Essas e outras dimensões inerentes à/ao artista-trabalhador/a recebem olhares não só críticos, mas sensíveis, que proporcionam construções poéticas fecundas.

Quem somos

Carolina Rodrigues é historiadora da arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ e mestranda em Artes Visuais, na linha de Imagem e Cultura, pela mesma instituição. Atua de forma independente em curadoria, pesquisa, produção de exposições e arte-educação. Articula questões relacionadas às fronteiras do sistema da arte, relações etnico-raciais e gênero sob uma perspectiva antirracista e decolonial a partir da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Atuou em pesquisa e catalogação no Museu D. João VI entre 2014 e 2016, com bolsa de iniciação científica do CNPq. Foi curadora das exposições Autopoiese: Representação e Representatividade (2018, Centro Cultural Phábrika), O Artista em Construção: Cores e Formas de Rafael (2018 e 2020, Centro Cultural Phábrika) e Dentro, Fora, Entre: o corpo da mulher (não) é uma casa (2019, Galeria Desvio). Também realizou a produção da exposição Transformar, Deformar, Dissipar (2018, Centro Cultural dos Correios) e curadoria editorial do Caderno Especial Artes e Maternidades (2019, Revista Desvio). Escreveu textos para o catálogo da V Bienal da Escola de Belas Artes. Participou de eventos acadêmicos e de instituições de arte em produção, comunicações e rodas de conversa. Atualmente faz parte da equipe editorial da Revista Arte & Ensaios (PPGAV/UFRJ). Instagram: @cisenraven

Luana Aguiar é artista visual, pesquisadora, professora, curadora independente e designer. Desenvolve, desde 2008, trabalho artístico com seu próprio corpo em performances ao vivo, vídeos e fotoperformances. Ao longo desses anos tem realizado ações tanto em galerias e museus quanto em espaços públicos. É doutoranda (bolsista Capes) e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e bacharel em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UERJ. Participou de festivais como o Festival Performance Arte Brasil no MAM/RJ, em 2011, Festival de Inverno do SESC/RJ, em 2012, e da I Bienal do Sertão de Artes Visuais em Feira de Santana, BA, em 2013, dentre outros. Tem trabalho seu publicado no catálogo internacional de performances Emergency Index de 2016. Entre 2018 e 2019, foi curadora do projeto Flexões Performáticas: gênero, número e grau, no CCBB/SP e de 2016 a 2018 foi professora substituta de graduação do departamento de história e teoria da arte da Escola de Belas Artes da UFRJ.Instagram: @luaguiar.art

João Paulo Ovidio é mestrando em História e Crítica da Arte pelo PPGAV/EBA/UFRJ, bacharel em História da Arte pela EBA/UFRJ e especialista em História da Arte e da Cultura Visual pela UCAM. Tem experiência na área de História da Arte, com ênfase em Gravura, atuando principalmente nos seguintes temas: arte no Brasil (século XX), crítica da arte e núcleos de ensino. Foi membro do grupo de pesquisa Experiências da Arte Moderna e Contemporânea no Brasil. Atualmente coordena o projeto Pesquisadoras sobre arte e Artistas Mulheres na Academia (PAMA/Desvio). Foi educador museal no SESC, Oi Futuro, Parque Lage, Casa Firjan, Museu do Meio Ambiente e Paço Imperial. Atuou como voluntário de pesquisa no Museu D. João VI, Instituto Fayga Ostrower e Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. É Diretor Chefe da Revista Desvio.
Instagram: @ovidio_jp

Priscila Medeiros é formada em História da Arte pela EBA-UFRJ e mestranda em História e Crítica da Arte pela mesma instituição. É arte educadora, pesquisadora e curadora independente. Atualmente dedica-se a estudos sobre decolonialidade, arte e educação e performance. Escreveu textos para os catálogos da V e VI Bienais da EBA e atuou como curadora do projeto “Novas poéticas” (2017), no Colégio Brasileiro de Altos Estudos. Foi assistente de curadoria na exposição “O barro em ciranda” no SESC Três Rios e “Luiz Alphonsus – Cartografia poética” na Galeria BNDES, sendo responsável pelo projeto educativo da exposição, ambas realizadas em 2019. Produziu pesquisa para livros didáticos em História da Arte. Trabalhou como estagiária de pesquisa e público do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, instituição em que também atuou como mediadora cultural. Foi monitora em exposições na Casa França Brasil e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, assim como na Universidade das Quebradas.
Instagram: @eupriscilamedeiros